O setor automotivo está entrando em uma das maiores fases de transformação de sua história. Inteligência artificial, conectividade veicular, eletrificação e novos modelos de mobilidade já deixaram de ser tendências distantes para se tornarem fatores estratégicos para montadoras, concessionárias, fornecedores e empresas de tecnologia.
Um novo estudo desenvolvido pela Automotive Business em parceria com a Roland Berger aponta que três pilares devem moldar a indústria até 2035: IA, conectividade e veículos híbridos. O relatório reúne percepções de executivos do setor e ajuda a entender para onde o mercado está caminhando nos próximos anos.
Um setor mais competitivo e tecnológico
A indústria automotiva brasileira deve viver um cenário de crescimento moderado, porém acompanhado de forte pressão competitiva. Segundo o relatório, os executivos do setor enxergam um ambiente com maior integração entre empresas, aceleração de fusões e aquisições e aumento da disputa por eficiência operacional.
Ao mesmo tempo, a transformação digital passa a ocupar posição central nas estratégias das empresas automotivas. A conectividade deixa de ser apenas um diferencial tecnológico e passa a influenciar diretamente a experiência do consumidor, o pós-venda, a gestão de dados e a fidelização de clientes.
Isso significa que o veículo do futuro não será apenas um meio de transporte, mas também uma plataforma digital conectada.
Inteligência artificial ganha protagonismo no setor
A inteligência artificial aparece como uma das principais megatendências para os próximos anos. O uso da IA já avança em áreas como:
- atendimento automatizado;
- pré-qualificação de leads;
- personalização da jornada do cliente;
- manutenção preditiva;
- análise de comportamento do consumidor;
- otimização logística;
- automação industrial.
O relatório aponta que muitas empresas já utilizam IA principalmente para melhorar o atendimento ao cliente e aumentar eficiência operacional.
Na prática, isso já pode ser observado em concessionárias e operações de vendas digitais. Ferramentas integradas ao WhatsApp, assistentes virtuais, simuladores inteligentes de financiamento e sistemas automatizados de pós-venda começam a se tornar padrão no relacionamento com o consumidor.
Além disso, o avanço da IA deve acelerar mudanças profundas dentro das próprias montadoras. Estudos internacionais indicam crescimento contínuo do mercado de software automotivo, impulsionado justamente por soluções ligadas à automação, conectividade e direção assistida.
A conectividade será parte essencial da experiência automotiva
O consumidor automotivo está cada vez mais digital. Mesmo quando a compra é concluída presencialmente, a jornada começa no ambiente online.
Segundo o estudo, a digitalização do setor ainda está em estágio intermediário para boa parte das empresas, mas existe consenso sobre o alto potencial de crescimento dessa transformação.
Entre as tendências de conectividade que devem ganhar força até 2035 estão:
- integração entre veículo e smartphone;
- atualizações remotas de software (OTA);
- monitoramento em tempo real;
- plataformas de serviços conectados;
- sistemas avançados de assistência ao motorista;
- recursos de IA embarcada;
- ecossistemas digitais de pós-venda.
O relatório também mostra que consumidores demonstram interesse crescente em tecnologias embarcadas e conectividade inteligente.
Esse cenário muda completamente o papel das concessionárias, que passam a atuar não apenas como pontos de venda, mas como centros de relacionamento contínuo com o cliente.
Híbridos devem liderar a transição energética no Brasil
Embora os veículos elétricos ganhem visibilidade global, o relatório aponta que o caminho brasileiro até 2035 deve ser dominado pelos híbridos.
Os modelos híbridos plug-in (PHEV) aparecem como a principal aposta dos executivos do setor, seguidos pelos híbridos leves (MHEV).
Isso acontece porque o mercado brasileiro ainda enfrenta desafios importantes para a eletrificação total, como:
- infraestrutura limitada de recarga;
- alto custo dos veículos;
- juros elevados;
- dúvidas sobre revenda;
- preocupação com autonomia;
- maturidade da tecnologia de baterias.
Segundo o estudo, a falta de infraestrutura de recarga é a principal barreira para adoção dos eletrificados no país.
Nesse contexto, os híbridos aparecem como uma solução intermediária mais compatível com a realidade brasileira, permitindo redução de consumo e emissões sem depender totalmente de uma rede ampla de carregamento.
Além disso, a concorrência chinesa vem acelerando esse movimento e pressionando montadoras tradicionais a ampliarem rapidamente seus portfólios eletrificados.
A influência crescente das marcas chinesas
Outro ponto importante destacado pelo relatório é o impacto das fabricantes chinesas no mercado nacional.
Além da competitividade em preços, essas empresas vêm ganhando destaque pela velocidade de inovação, principalmente em:
- eletrificação;
- conectividade;
- softwares embarcados;
- experiência digital;
- inteligência artificial.
Esse avanço força uma reorganização estratégica do setor, pressionando fabricantes tradicionais a acelerar investimentos em inovação e digitalização.
Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de regionalização produtiva e fortalecimento da cadeia de suprimentos no Brasil. Segundo o relatório, 83% dos executivos consideram a regionalização da produção parte importante da estratégia futura do setor.
Cadeia de suprimentos e regulação continuam como desafios
Apesar do avanço tecnológico, o setor automotivo ainda enfrenta desafios estruturais importantes.
Entre os principais pontos de atenção citados pelos executivos estão:
- instabilidade regulatória;
- reforma tributária;
- pressão ambiental;
- tarifas comerciais;
- competição internacional;
- dependência tecnológica;
- custos logísticos.
O estudo mostra que as incertezas regulatórias seguem influenciando diretamente o planejamento estratégico das empresas automotivas.
Além disso, o cenário global exige maior flexibilidade industrial e adaptação rápida às mudanças tecnológicas.
O futuro da mobilidade será híbrido, conectado e orientado por dados
Até 2035, o setor automotivo deve se tornar muito mais tecnológico, integrado e orientado por dados.
Os veículos passarão a operar dentro de ecossistemas digitais cada vez mais completos, onde software, conectividade e inteligência artificial terão papel tão importante quanto mecânica, potência e desempenho.
Ao mesmo tempo, concessionárias e empresas do ecossistema automotivo precisarão acelerar sua transformação digital para acompanhar um consumidor mais conectado, exigente e acostumado com experiências rápidas e personalizadas.
Mais do que vender veículos, o mercado automotivo caminha para vender serviços, experiências e relacionamento contínuo.
A próxima década deve consolidar uma nova lógica para a mobilidade — mais inteligente, conectada e integrada à tecnologia





