A retirada da prova de baliza do exame prático para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) tem ganhado espaço no debate público e no setor automotivo. O que à primeira vista parece uma mudança pontual no processo de habilitação revela, na prática, impactos mais amplos — especialmente para gestores de concessionárias, equipes comerciais e profissionais de marketing automotivo atentos à evolução do perfil do consumidor e da frota brasileira.
Atualmente, 10 estados brasileiros já não exigem mais o teste de baliza na prova prática. A decisão mais recente veio de Sergipe, que anunciou o fim da obrigatoriedade nesta sexta-feira (30). Antes disso, São Paulo havia eliminado a etapa na segunda-feira (26), juntando-se a Amazonas, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul. O Distrito Federal, por sua vez, é um caso emblemático: desde 2004 a baliza não integra o exame prático local.
Base legal e o papel do Contran
Grande parte dessas mudanças ganhou força após a publicação da Resolução nº 1.020 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). A norma “normatiza os procedimentos sobre a aprendizagem, a habilitação e a expedição de documentos de condutores e o processo de formação do candidato à obtenção da habilitação”.
Embora a resolução não cite explicitamente a baliza, ela prevê a criação do Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular, que deverá padronizar, em âmbito nacional, os critérios da prova prática. O documento, porém, ainda não foi publicado pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). Esse vácuo regulatório explica por que muitos Detrans adotaram interpretações próprias, enquanto outros optaram por aguardar o manual antes de promover ajustes.
Detrans de estados como Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina já informaram que só farão mudanças após a publicação oficial do manual, buscando segurança jurídica e uniformidade nos exames.
Mudanças graduais e realidades regionais
Além dos estados que já aboliram a baliza, há casos de transição. Em Mato Grosso, por exemplo, a retirada do teste começou em janeiro, com implementação gradual até fevereiro. Esse modelo híbrido indica cautela e adaptação às realidades locais de infraestrutura, formação de instrutores e cultura de trânsito.
Para o setor automotivo, esse cenário fragmentado exige atenção. Um candidato habilitado em um estado pode ter passado por um exame prático bastante diferente de outro, o que influencia desde a percepção de dificuldade da CNH até o nível de confiança do novo motorista.
São Paulo e a liberação de carros automáticos
Em São Paulo, a mudança foi além do fim da baliza. O Detran-SP passou a permitir que candidatos realizem a prova prática com veículos automáticos, algo que antes era restrito a pessoas com necessidade de adaptação veicular.
Segundo o órgão, a decisão reconhece “a crescente presença desse tipo de veículo na frota brasileira” e amplia as possibilidades para os candidatos. Para concessionárias e equipes de vendas, essa medida é estratégica: ela aproxima o processo de habilitação da realidade do mercado.
Dados do Instituto Nacional de Metrologia Qualidade e Tecnologia (Inmetro), por meio do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), mostram que apenas 121 dos 769 modelos e versões vendidos no Brasil contam com câmbio manual. Isso representa 15,7% do total comercializado. Ou seja, a ampla maioria dos veículos novos já é automática.
Impactos para concessionárias e marketing automotivo
Para gestores e profissionais de marketing automotivo, essas mudanças sinalizam tendências importantes. A simplificação do exame pode reduzir barreiras de entrada para novos motoristas, ampliando o público potencial para veículos de entrada, usados seminovos e modelos automáticos.
Além disso, a habilitação em carros automáticos tende a reforçar a demanda por esse tipo de transmissão, impactando mix de estoque, estratégias de comunicação e até campanhas educacionais sobre tecnologias de condução, assistência ao motorista e segurança ativa.
Concessionárias que se posicionarem como parceiras do novo motorista, oferecendo conteúdos educativos, test drives orientados e soluções de financiamento adequadas a esse público, podem ganhar vantagem competitiva.
Debate entre especialistas
A retirada da baliza, no entanto, divide opiniões. A especialista em direito de trânsito Laura Diniz avalia a mudança de forma crítica. Para ela, estacionar corretamente é uma habilidade cotidiana e essencial para a fluidez e segurança do tráfego. “Ao retirar essa etapa do exame, corre-se o risco de habilitar condutores que ainda não possuem domínio suficiente do veículo”, afirma.
Já a psicóloga especialista em trânsito Cecília Bellina adota uma visão mais cautelosa do que contrária. Ela ressalta que mudanças sucessivas, sem avaliação adequada das anteriores, podem gerar efeitos imprevisíveis no comportamento do condutor. Para Bellina, o problema não é a retirada da baliza em si, mas a falta de acompanhamento e mensuração de resultados.
O que esperar daqui para frente
A publicação do Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular será decisiva para o futuro da prova prática no Brasil. Até lá, o cenário seguirá heterogêneo, com estados avançando em mudanças e outros aguardando diretrizes nacionais.
Para o setor automotivo, a mensagem é clara: o processo de habilitação está se aproximando da realidade do mercado e da frota circulante. Entender essas transformações — e traduzi-las em estratégias comerciais, de comunicação e de relacionamento — será fundamental para acompanhar o novo perfil do motorista brasileiro.





