Produção de veículos cresce no semestre, mas fábricas reduzem ritmo em junho

Produção de veículos cresce no semestre, mas fábricas reduzem ritmo em junho

O primeiro semestre de 2025 trouxe uma notícia positiva para o setor automotivo brasileiro: a produção de veículos no país cresceu 7,8% em relação ao mesmo período do ano passado, totalizando 1,22 milhão de unidades fabricadas. Esse dado reflete um cenário de leve recuperação da indústria, impulsionada principalmente pelas exportações e pela demanda por veículos leves. No entanto, apesar desse avanço, o ritmo de produção sofreu desaceleração nos dois últimos meses, o que acende um alerta sobre a consistência desse crescimento.

A queda no volume de produção em junho foi significativa. Com 200,7 mil unidades produzidas, o número representa uma redução de 6,5% em relação a maio, que, por sua vez, também havia registrado um recuo em comparação a abril. Na comparação com junho de 2024, a queda foi de 5%. Esses números revelam um cenário instável, em que os ganhos acumulados ao longo dos primeiros meses do ano podem ser ofuscados por uma desaceleração mais acentuada no segundo semestre.

De acordo com Igor Calvet, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), o crescimento na produção de veículos leves — que subiu 8% no semestre — foi sustentado especialmente pelas exportações para a Argentina. O país vizinho continua sendo o principal destino dos veículos brasileiros, e sua demanda ajudou a manter o nível de atividade nas linhas de produção nacionais, compensando parcialmente a retração do mercado interno.

Por outro lado, o varejo nacional mostrou sinais de fraqueza. As vendas de veículos leves ao consumidor final caíram 10% nos últimos meses, o que impactou negativamente a produção local. Além disso, o segmento de caminhões também apresentou desempenho abaixo do esperado, colaborando para a desaceleração do setor como um todo. Isso evidencia um descompasso entre a capacidade produtiva das montadoras e a real demanda do mercado doméstico.

O quadro se agrava ao observar a tendência histórica. Entre 2011 e 2025, o Brasil perdeu cerca de 35% da sua capacidade produtiva de veículos, conforme apontado por Calvet. Em 2011, a indústria automotiva brasileira registrou o recorde de mais de 3,4 milhões de veículos produzidos. Já em 2025, a expectativa é de encerrar o ano com um número significativamente inferior, apesar de iniciativas governamentais e privadas para recuperar o setor.

O primeiro semestre de 2011, por exemplo, registrou a produção de 1,69 milhão de unidades — um número substancialmente maior do que o verificado no mesmo período de 2025. Essa diferença revela uma trajetória de desaceleração progressiva da indústria automotiva nacional, agravada por fatores como perda de competitividade, aumento da concorrência internacional e mudanças nas políticas públicas do setor.

É importante lembrar que, em 2011, o contexto era mais favorável. A economia brasileira vivia um momento de expansão, com maior acesso ao crédito, incentivos fiscais (como a redução do IPI para automóveis), e aumento da renda da população. Esses elementos estimularam o consumo e fortaleceram o mercado interno. Atualmente, o cenário é mais desafiador, com crédito mais restrito, inflação elevada e consumidores mais cautelosos.

Naquela época, o mercado automotivo também enfrentava uma onda de importações de modelos chineses e coreanos, que preocupava as montadoras instaladas no país. Como resposta, foi criado o programa Inovar Auto, com o objetivo de estimular a produção local e preservar empregos. O programa oferecia incentivos para fabricantes que investissem em inovação e produção nacional, numa tentativa de conter a desindustrialização do setor.

Hoje, as preocupações se renovam com a crescente presença de veículos importados no mercado brasileiro. Montadoras locais pressionam o governo para aumentar a alíquota de importação, a fim de equilibrar a concorrência. A estratégia, segundo representantes da indústria, visa preservar a competitividade da produção nacional frente a marcas estrangeiras que, em muitos casos, conseguem operar com custos mais baixos e repassar preços mais agressivos ao consumidor final.

Além da questão tarifária, há um embate político envolvendo a redução de impostos sobre a produção SKD/CKD — modelos parcialmente desmontados e montados em território nacional. A Anfavea alega que fabricantes chineses, com plantas no Brasil, estariam se beneficiando dessa brecha tributária e defendendo a manutenção do benefício em Brasília. A entidade, por sua vez, considera isso um risco à indústria local e um desestímulo à produção integral em solo brasileiro.

Apesar desse ambiente conturbado, a Anfavea afirma que os mais de R$ 130 bilhões em investimentos anunciados pelas montadoras, dentro do Programa Mover, estão mantidos. O programa, criado para estimular a modernização e descarbonização da frota brasileira, representa uma tentativa do governo de alinhar o setor às tendências globais de mobilidade sustentável, mesmo diante das incertezas políticas e econômicas.

Enquanto isso, as exportações seguem como o pilar de sustentação da produção local. A Argentina, historicamente o principal parceiro comercial do Brasil no setor automotivo, continua demandando veículos brasileiros. Essa parceria, inclusive, tem sido fundamental para que as fábricas nacionais mantenham alguma regularidade em suas operações, mesmo com as vendas internas em queda.

As tradicionais campanhas de fim de ano, como feirões e condições especiais de financiamento, são vistas como uma esperança para o segundo semestre. De acordo com Calvet, a expectativa é que essas ações possam impulsionar o varejo e ajudar a recuperar o volume perdido nos últimos meses. Se bem-sucedidas, essas campanhas devem contribuir para que a produção volte a ganhar fôlego e se aproxime das metas estabelecidas para o ano.

Contudo, esse otimismo é cauteloso. A Anfavea reforça que o avanço dos veículos importados pode impactar diretamente o ritmo das linhas de montagem no Brasil. Atualmente, os modelos chineses representam cerca de 6% das vendas totais, e sua presença crescente preocupa os fabricantes locais. Há uma clara tensão entre manter a abertura de mercado e proteger a indústria nacional.

Além disso, o aumento do imposto de importação para veículos híbridos e elétricos, anunciado recentemente pelo governo, mostra que há uma tentativa de equilibrar o jogo. Ainda assim, grandes players como a BYD afirmam que suas estratégias no Brasil não mudarão. A marca chinesa, que já anunciou a construção de fábricas no país, aposta na consolidação do seu portfólio mesmo com a nova tributação.

Outro fator que pode impactar o setor é a instabilidade internacional. Conflitos geopolíticos, como a tensão entre Israel e Irã, podem gerar efeitos indiretos sobre a indústria brasileira, principalmente no encarecimento de insumos e componentes. A dependência do Brasil por peças importadas torna o setor sensível a essas variações, o que pode comprometer os prazos de produção e elevar os custos operacionais.

Ainda assim, montadoras como a Honda estão apostando em uma retomada. A marca japonesa anunciou contratações para aumentar sua capacidade de produção no país, sinalizando uma confiança renovada no mercado brasileiro. Esse movimento mostra que, apesar dos desafios, há oportunidades para crescimento, especialmente se houver estabilidade nas políticas públicas e estímulos à indústria nacional.

Por fim, o futuro da produção automotiva no Brasil dependerá de uma série de fatores: política industrial consistente, ambiente econômico estável, acesso ao crédito, competitividade frente ao mercado global e modernização das fábricas. O país tem potencial de se manter como um importante polo produtor na América Latina, mas para isso será necessário enfrentar as dificuldades estruturais que há anos limitam o crescimento do setor.

A transformação digital também se apresenta como uma oportunidade estratégica. A adoção de tecnologias como automação industrial, inteligência artificial e manufatura 4.0 pode aumentar a eficiência das fábricas brasileiras, reduzir custos e melhorar a qualidade dos produtos. Essas inovações são essenciais para reposicionar a indústria nacional em um cenário global cada vez mais competitivo.

A sustentabilidade é outro tema que deve ganhar espaço nos próximos anos. Com a transição energética em curso, as montadoras precisarão adaptar seus portfólios para atender às novas exigências ambientais. A produção de veículos híbridos e elétricos, ainda incipiente no Brasil, precisará ganhar escala e competitividade para atender à demanda futura e às regulações previstas para a próxima década.

Em resumo, embora o crescimento no primeiro semestre de 2025 seja um sinal positivo, ele não apaga os desafios estruturais enfrentados pela indústria automotiva nacional. A desaceleração recente, o avanço dos importados e a necessidade de ajustes fiscais e tributários exigem atenção redobrada. Com planejamento estratégico, investimentos consistentes e apoio governamental, o setor pode encontrar um caminho sustentável de crescimento.

Compartilhe este artigo

Mais Artigos

Marketing para qualquer negócio!

Somos uma agência de marketing digital localizada em São Paulo, atendemos em todo país

Somos uma agência de Marketing focada em estratégias digitais para sua empresa. Prezamos pela qualidade na entrega do nosso serviço pois somos apaixonados por resultados. Estamos prontos para atendê-lo em todas suas necessidades!

Possuímos o maior leque de serviços de marketing digital para todos os mercados!